quinta-feira, 31 de maio de 2012

Mudança - de Clarisse Lispector


MUDANÇA

Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa. Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua. Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando com atenção os lugares por onde você passa.
Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas. Dê os seus sapatos velhos. Procure andar descalço alguns dias. Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia, ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas e portas com a mão esquerda. Durma no outro lado da cama... Depois, procure dormir em outras camas. Assista a outros programas de tv, compre outros jornais... leia outros livros.
Viva outros romances.
Não faça do hábito um estilo de vida. Ame a novidade. Durma mais tarde. Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos, escolha comidas diferentes, novos temperos, novas cores, novas delícias.
Tente o novo todo dia. O novo lado, o novo método, o novo sabor, o novo jeito, o novo prazer, o novo amor.
A nova vida. Tente. Busque novos amigos. Tente novos amores. Faça novas relações.
Almoce em outros locais, vá a outros restaurantes, tome outro tipo de bebida, compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado... outra marca de sabonete, outro creme dental... Tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores. Vá passear em outros lugares.
Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes.
Troque de bolsa, de carteira, de malas, troque de carro, compre novos óculos, escreva outras poesias.
Jogue os velhos relógios, quebre delicadamente esses horrorosos despertadores.
Abra conta em outro banco. Vá a outros cinemas, outros cabeleireiros, outros teatros, visite novos museus.
Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só. E pense seriamente em arrumar um outro emprego, uma nova ocupação, um trabalho mais light, mais prazeroso, mais digno, mais humano.
Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as. Seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino. Experimente coisas novas. Troque novamente. Mude, de novo. Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas, mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. Só o que está morto não muda !
Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não
vale a pena!


De Clarice Lispector

Felicidade realista - por Mário Quintana

FELICIDADE REALISTA

A princípio bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, mas nossos desejos são ainda mais complexos. Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, sarados, irresistíveis. Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguer, a comida e o cinema: queremos a piscina olímpica e uma temporada num spa cinco estrelas. E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos alguém com quem podemos conversar, dividir uma pizza e fazer sexo de vez em quando. Isso é pensar pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo. Queremos estar visceralmente apaixonados, queremos ser surpreendidos por declarações e presentes inesperados, queremos jantar a luz de velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, queremos ser felizes assim e não de outro jeito. É o que dá ver tanta televisão. Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista. Ter um parceiro constante pode ou não, ser sinónimo de felicidade. Você pode ser feliz solteiro, feliz com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro, feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio. Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, usufruí-lo. Não perder tempo juntando, juntando, juntando. Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado. E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar segurar a onda, buscando coisas que saiam de graça, como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de criatividade. Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem almejar passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno. Olhe para o relógio: hora de acordar É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz, mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um jogo onde só quem testa seus limites é que leva o prémio. Não sejamos vítimas ingénuas desta tal competitividade. Se a meta está alta demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se. Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. Ela transmite paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca inquietude no nosso coração. Isso pode ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade.


Mário Quintana
 

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Música indiana Ravi e Anoushka Shankar

Ainda a propósito de música indiana, referida no posto anterior, aqui está "Easy", 
das irmãs Anoushka Shankar e Norah Jones, 
filhas do mestre indiano Ravi Shankar.


Muito boa a suavidade da voz em cima da música de cítara indiana. Gosto muito!
Faz parte do disco "Breathing under water" de Anoushka Shankar.


Ravi Shankar, acompanhado por sua filha Anoushka Shankar, 
tocam ao vivo para a BBC no The Symphony Hall, Birmingham.

Índia

Costumo dizer que fui indiana noutra reencarnação. 
Adoro música indiana, as cores, sempre quis estudar as tradições e os seus deuses tão interessantes. 
Não gosto propriamente da confusão e pobreza que sabemos existir na India, mas gosto da mistura de cores das roupas ou dos mercados, da comida e seus condimentos.
A música indiana leva-me a lugares onde nunca fui, mas penso que me são familiares. Sei lá porquê...


Ouçam o grande mestre Ravi Shankar a tocar cítara em dueto com o violinista Yehudi Menuhin, e vejam as imagens do pintor Raja Raji Varma, pode ser que me entendam.

Bôlas de Lamego

Guardo as memórias do percurso da minha vida em compartimentos. À medida que mudo, de local de trabalho, de casa, de cidade, de amigos... vou pondo o que fica para trás em gavetas que deixo entreabertas umas, fechadas outras.
Penso que é assim com toda a gente, a diferença é que para algumas pessoas que conheço, essas gavetas estão sempre a abrir e fechar a qualquer momento.
As minhas não, tenho gavetas fechadas há muitos anos, que mesmo sabendo onde estão, permanecem bem arrumadas no sotão.

Acontece que nos últimos 2 ou 3 anos, tenho sido bastante solicitada para abrir as minhas "gavetas de memória" e tem sido bom. Têm surgido lugares e pessoas que eu tinha esquecido ou apenas adormecido.

Lamego é um desses lugares...

Por circunstâncias familiares, vivi em Lamego de 1981 a 1987.

No princípio um pouco contrariada, mas depois (como sempre) adaptei-me.
Gostei da cidade e gostei de conhecer tantas pessoas. O desporto aproximou-me de colegas de Liceu. Joguei basket nos torneios inter-escolares, pratiquei dança-jazz na classe da minha cunhada Maria da Luz, fiz descidas de rio em kayak, caminhadas pelas serras, até ganhei uma taça num torneio de ténis de mesa (a minha única taça)...
Foi também aqui que iniciei a minha vida profissional. Enfim, conheci em Lamego pessoas interessantes, mas que tinham ficado guardadas na memória e lá ficaram. Mas fiz também amigos para a vida, como se revelaram agora, ao fim de tantos anos.
Reapareceram algumas pessoas há pouco tempo, e reavivaram as cinzas das memórias, fizeram-me concluir que eu até tinha gostado de viver nesta cidade. Fiquei com saudades delas e do que vivemos...

Mas saudades, saudades, eu sentia das famosas Bôlas de Lamego!!!
E não é que a minha querida amiga Isabel Vouga me trouxe uma Bôla de lá?

Esta já serviu para matar as saudades... Isabel quando voltas a ir visitar os teus Pais???

Leveza...

A Arte, quanto a mim, tem de me fazer pensar e imaginar. Não se trata apenas de criar, inventar, tem de significar algo, tem de me dizer alguma coisa. Senão fica apenas a peça criada e executada por alguém, que pretendeu transmitir algo mas não conseguiu. E fica por ali...
Claro que cada pessoa interpreta a Arte como muito bem quer. O belo ou o feio toca a cada um de diferentes formas. O que para mim é bonito e belo, pode ser horrível para outra pessoa, e vice-versa.

Isto tudo vem a propósito de uma imagem que vi um dia destes, no meio de tantas outras criações de uma artista brasileira, mas na altura escolhi esta pela suavidade que me transmitiu...

Trata-se de um painel feito em tecido da artista Renata Basile

Neste momento que estou cheia de calor lembrei-me desta imagem, os tecidos leves e transparentes de cores pastel, próprias para usar em dias quentes, lembram-me também as férias, a praia, andar ao ar livre...

Lembrei-me também de uma frase de Elis Regina a propósito do nascimento da filha Maria Rita, perguntaram-lhe o que queria para o futuro de sua filha, Elis respondeu apenas que queria que Maria Rita fosse leve, que sua vida fosse leve...

A Arte é assim, leva-nos o pensamento e imaginação para lugares só nossos, voamos sem dar conta.

Guerra Civil de Miguel Torga


Miguel Torga (Adolfo Rocha) em Panóias


GUERRA CIVIL

É contra mim que luto.
Não tenho outro inimigo.
O que penso
O que sinto,
O que digo
E o que faço
É que pede castigo
E desespera a lança no meu braço.

Absurda aliança
De criança
E adulto,
O que sou é um insulto
Ao que não sou;
E combato esse vulto
Que à traição me invadiu e me ocupou.

Infeliz com loucura e sem loucura,
Peço à vida outra vida, outra aventura,
Outro incerto destino.
Não me dou por vencido,
Nem convencido.
E agrido em mim o homem e o menino.


MIGUEL TORGA, in ORFEU REBELDE (1958), in ANTOLOGIA POÉTICA (Coimbra, 4ª ed., 1994)

Aos injustiçados



SEPARAÇÃO DAS ÁGUAS
Quando na malhada te apontem o dedo
e te critiquem por não alinhares no gamelão
é sinal que a vara de porcos está com medo
e que te não reconhecem como irmão.

Mas nós, amigo te chamaremos,
terás sempre a nossa solidariedade
como tu, também não desarmaremos
somos Nós a outra Irmandade

Eles que fiquem SUÍNOS ANAFADOS
e nós CIDADÃOS HONRADOS!

De Miguel Varunca Simões

terça-feira, 29 de maio de 2012

Tem gente...

“Tem gente que chega de mansinho e vem fazendo casa na vida da gente.
Se aconchega feito brisa leve, até que a gente pede para não mais partir.
Tem gente tão especial que nos dá paz, apenas num olhar e diz num simples gesto
Que veio para ficar.
Não vê nossos defeitos.
Nos faz especiais...
É gente desse jeito que eu quero sempre mais."
 

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Procuro Presépio M.I.D.

PROCURO 
Presépio da marca Moderna Industrial Decorativa Lda, que esteve numa exposição do Posto de Turismo, no Largo da Portagem, em Coimbra, no início da década de 50. 
Nesta exposição também esteve em exibição um famoso presépio do Museu Machado de Castro.
O Presépio que procuro foi feito pelo meu avô Francisco Caetano e vendida com o selo da sua fábrica.
Se alguém se lembrar desta exposição ou tenha ouvido falar e me possa dar alguma informação, eu agradecia muito.